O céu está cinzento com nuvens escuras criando uns desenhos estranhos, passando muito rápido. Um dia bom para morrer, escuro e triste como a morte. Cemitério, sepultura aberta, poucas pessoas chorando baixinho, flores com as pétalas caindo, a água escorrendo dos negros guarda-chuvas.

Essa cena passa na sua cabeça, enquanto olha pela janela aberta em seu quarto de hospital. Há quanto tempo estava internada aqui? Um mês? Um ano? Que importa? Que diferença faz? Na maior parte do tempo, não tinha consciência do tempo.

Parece que aconteceu ontem, mas não foi. Demorou quase 40 anos para chegar aqui; não sem antes ter passado por aqui muitas e muitas vezes.

não tinha certeza se esses momentos de consciência são uma dádiva ou um castigo, pois com a lucidez vêm as lembranças de um passado que, se pudesse pedir alguma coisa a Deus, queria nunca lembrar daqueles anos de dor e esperança, que sempre terminava em mais dor e novas tentativas e mais esperanças frustradas.

, Sarah, tinha esse nome dado por minha mãe por ser um nome bíblico, pois ela era uma crente fiel. O nome Sarah tem o significado “filha do Rei”, “princesa”, “dama” ou donzela”, nome originado do hebraico.

Nasci em uma madrugada muito fria no dia 25 de maio 1965, numa fazenda no interior do Estado de Minas Gerais. A parteira teve muito trabalho para trazê-la a esse mundo, pois minha mãe estava muito fraca por causa de uma anemia profunda que teve durante toda a gravidez.

Hoje eu penso que eu queria nascer. Segundo algumas crenças, meu espírito já sabia o que estava reservado para mim nesse mundo.

Mas, como já sabem, eu nasci. Pequenina, que parecia parto de 7 meses, anêmica, muito fraca e quieta. Não sei se por medo, ou por falta de forças para chorar, ou, quem sabe, guardando as lágrimas para o futuro que me aguardava.

Quando criança, a minha vida foi um inferno, sendo a mais velha de 15 irmãos e morando no interior e sendo muito pobres. Eu, Sarah, era lavadeira, passadeira, cozinheira, arrumadeira e tinha que ter tempo para aprender a costurar, bordar, tricotar, fazer renda e crochê.

Isso era um aprendizado que toda menina-moça tinha que ter, pois fazia parte da educação de uma moça de família que tem que casar e construir uma família.

Muitas vezes, me pergunta: por que tinha de casar? Era uma obrigação de todas as meninas-moças?

Ah, se eu pudesse escolher… Eu não casaria, eu queria era estudar, mudar daquele lugar pobre que tinha como único objetivo o casamento.

Depois de um longo dia, de muito trabalho, estando muito cansada, eu fechava os olhos e me via em outra cidade de casas lindas, muitas lojas de tecidos, sapatos, móveis lindos… E muitos enfeites para casa e também para as mulheres; chapéus, fitas e rendas, muitas rendas.

Nossa! Como eu gostava de renda! Será que um dia eu poderia fugir dali e ir morar nesse outro mundo, que era bem mais bonito, acolhedor e cheio de promessas?

E com esse pensamento, caía de novo em um mundo de inconsciência!

Será que Sarah vai acordar de novo?

Ou vai para aquele mundo que todos nós, humanos, imaginamos, mas nenhum mortal jamais conheceu?

*NEIDE LIMA é socióloga, graduada e pós graduada em Psicanálise Clínica, licenciada em Pedagogia e mestre em Políticas Públicas.

PLANTÃO CAPIXABA – A GENTE MOSTRA O ESPÍRITO SANTO! | REDAÇÃO MULTIMÍDIA

 

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